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martes, 1 de xullo de 2025

Revelación de la noche

Los artículos de António Guerreiro en el diario portugués Público son una lección semanal que nos reconcilia con los valores más nobles de la prensa.

* * *

Night Music (Stan Brakhage, 1986)

El periódico portugués Público es para mí, y con mucha diferencia, el mejor de los que se editan en la península, en parte gracias a su cuaderno de los viernes, Ípsilon, en el que aún es posible leer textos de extensión generosa. El día que escribo estas líneas Ípsilon dedica seis páginas a una exposición de fotografías sobre el Portugal post-25 de abril y otras cuatro a una excelente entrevista de Jorge Mourinha al catalán Albert Serra (por la llegada a las salas de cine del país vecino de su obra maestra Tardes de soledad), despliegues que infelizmente son ahora infrecuentes en la prensa de papel. Una lectura pertinente cada viernes es la colaboración semanal de António Guerreiro, Acção Paralela. Crítico literario, editor de la revista Electra y profesor invitado de la Facultad de Bellas Artes de la Universidad de Lisboa, las crónicas de Guerreiro ofrecen una mirada siempre inteligente sobre el estado del mundo a través de artículos universales e intemporales por la calidad y precisión de su prosa y la perspicacia de sus análisis. A menudo expone su preocupación por la conservación de la naturaleza, que incluye, y eso sí que es inusual, el interés (y la crítica) hacia la contaminación lumínica, que él mismo reconoce una consecuencia de su atención al trabajo del investigador Raul Cerveira Lima, con quien mantiene desde hace unos años un «diálogo intermitente». Guerreiro es uno de los firmantes de la carta abierta al primer ministro de la República que Raul impulsó en 2021, Reduzir a poluição luminosa em Portugal, junto al arquitecto Alexandre Alves Costa, la ecóloga Helena Freitas, la historiadora Rosa Fina, el astrónomo Pedro Russo o el cineasta João Pedro Rodrigues (además de Fabio Falchi, Salva Bará y yo mismo).

Su brillante columna del 30 de mayo, Revelação da noite, reflexiona sobre el apagón ibérico, que evidenció como las personas tienen en general una visión del trabajo «que se parece más a una servidumbre» de forma que «todo lo que los aparta de esa servidumbre es un asomo de felicidad». Pero la «revelación metafísica, quizá la más importante de todas» ocurrió al caer la noche en aquellos lugares en los no se había restablecido la electricidad. «El mundo urbanizado, colonizado por la electricidad, parecía haberse replegado» y mucha gente descubrió la noche, incluido ese «extraño fenómeno luminoso que, para los profanos (no para los astrónomos), ha existido desde la fundación del mundo:
la Vía Láctea», un paisaje ya desaparecido en casi toda Europa. Frente a la «adhesión sin control a todo lo que es indicador de progreso» que deriva en una paradoja, «cuanto más progresista en los aspectos tecnológicos y de consumo, más reaccionario en términos culturales», el autor concluye que «la captura de la noche por las luces artificiales del capitalismo contemporáneo 24/7 (es decir, sin treguas, 24 horas al día, siete días a la semana), la hegemonía del día recreado artificialmente, proporciona hoy un motivo que, aún sin tener todavía gran fuerza, justifica la crítica social del capitalismo». Siempre lúcido António Guerreiro.

Martin Pawley. Artigo publicado orixinalmente na sección "La noche es necesaria" da Revista Astronomía, número 313-314, xullo-agosto de 2025.

mércores, 14 de outubro de 2015

Um Dia Normal: entrevista a Sérgio B. Gomes

Hai meses saudamos con entusiasmo a publicación no sitio web do xornal Público do filme de 24 horas Um Dia Normal, que neste blog consideramos unha das propostas audiovisuais máis estimulantes de 2015. Conversamos hoxe co coordinador do proxecto, Sérgio B. Gomes, sobre a xénese e posta en marcha do mesmo.

No marco do obxectivo xeral de celebrar o 25º aniversario do xornal, como xorde o proxecto?
O planeamento da edição de aniversário do jornal foi lento e complicado. Era uma edição ambiciosa porque marcava, em primeiro lugar, um quarto de século de existência de um jornal em papel. Durante as eufóricas e confusas reuniões de brainstorming para esse momento, dia 5 de Março, houve várias sugestões para trabalhos online, mas quase sempre em complemento com os trabalhos que foram sendo pensados para a edição em papel. No Público Online não gostamos de andar a reboque de nada. Nem ficar dependentes das contingências de outros suportes. De maneira que, mal saímos da última reunião comecei a pensar em voz alta ao lado da directora, Bárbara Reis, e de um dos editores online, Hugo Daniel Sousa. Estava a pensar na palavra “tempo” e naquilo que poderia ser diferente (muito diferente) do que estamos habituados a ver online. Percebi que tinha de ser um trabalho de vídeo, porque o tempo aí não seria meramente descritivo (ou descrito) como aconteceria com a palavra numa reportagem de texto. O tempo é a natureza da imagem em movimento, é um factor determinante e omnipresente – um minuto é um tempo perfeito.
Começamos a falar em 12 reportagens vídeo, depois em 24, tantas quantas horas tem um dia. Mas pareceu-nos tudo deja vú, antiquado, ultrapassado. E perguntei: e se fizéssemos um vídeo por cada minuto de um dia? Quantos minutos tem um dia? 1440. Estávamos a um mês da edição. A Bárbara e o Hugo acharam a ideia uma bocado louca, impossível de pôr em prática por causa do tempo disponível. Tínhamos um mês para concretizar tudo. Achei possível e consultei a equipa Multimédia (webdesigners/developers, IT, vídeo). Não sei se pelo meu entusiasmo ou pela ideia muito ambiciosa, o certo é que todos disseram que sim, que era possível. Foi assim. E começámos logo a trabalhar.

Tivestes algún referente para definir o proxecto, tanto no seu deseño conceptual coma na súa presentación web final? Nos últimos anos acadaron un gran eco propostas tan diferentes entre si coma o The Clock de Christian Marclay ou as 24 Hours of Happy de Pharrell Williams...
Uma das iniciativas para comemorar os 25 anos do Público foi justamente trazer a Lisboa a peça de The Clock, de Marclay (esteve em exposição no Museu Colecção Berardo), mas confesso que na altura em que discutimos esta ideia eu nem sabia da existência desta obra. Conhecia o 24 Hours of Happy, de Pharrell Williams. Não pensei nele nas primeiras conversas sobre a ideia de Um Dia Normal. Mas depois, naturalmente, fomos tentar perceber como tinham resolvido uma série de questões técnicas que entretanto se  levantaram (peso do vídeo, navegação de umas horas para outras, qualidade da imagem...). Em termos conceptuais (ou editoriais, para ser mais rigoroso) não tivémos nenhum referente directo. No área do jornalismo - considero Um Dia Normal um trabalho de jornalismo, uma reportagem visual - não conheço nada semelhante.

Que prazos de tempo se manexaron para o deseño, desenvolvemento e finalización do “filme”?
Tivemos um mês para tudo – pensar, produzir, gravar vídeo e áudio, editar, cortar, montar, desenvolver, testar, implementar.

Como foi a produción e a gravación? Que pautas se seguiron para a gravación das imaxes?
Tentámos uma produção organizada nos primeiros quinze dias, mas depois mergulhámos no caos e percebemos que não teríamos tempo para controlar tudo. E por isso, aceitámos o improviso, a sensibilidade de cada um e a capacidade de encontrar momentos que encaixassem na nossa ideia de partida. Tínhamos uma equipa de vídeo de três pessoas (comigo a coordenar) a trabalhar em permanência na gravação um pouco por todo o país (cada saída para uma região podia durar no máximo três dias). À medida que fomos avançando, foram-se juntando outras pessoas individualmente (no Porto, nos Açores, em Lisboa...). Pedi que os planos fossem fixos e com som directo, que as cenas tivessem o máximo de genuidade. Tratava-se de olhar para o que nos rodeia e captar a marca do quotidiano. Mesmo os brutos deviam ser criteriosos (não filmar uma hora para escolher um minuto). Não tivemos uma preocupação de representatividade ou de quotas (de região, de profissões, de idades...). Aliás, qualquer pretensão deste tipo seria utópica. É impossível reproduzir visualmente todo o quotidiano, todo um país ou toda a geografia... Termos interiorizado uma série de impossibilidades deu-nos força para encontrar as possibilidades.

Entre os minutos deste “día normal” atopamos formas e actitudes moi diversas. Que criterios seguistes para “contar Portugal en 24 horas”?
Os exercícios unificadores num trabalho com esta magnitude e com o tempo que tivemos eram difíceis de concretizar. Tentámos alguns, mas não foram postos em prática. O que tentámos foi trazer notas visuais de reportagem, que podiam não ser necessariamente imagens chocantes, impactantes, noticiosas ou extraodinárias (o objectivo de partida era contrariar um pouco isto). Tentámos, acima de tudo, olhar para o que nos rodeia com o objectivo de retirar daí alguma marca de quotidiano de uma sociedade e de um país que se chama Portugal. A maior parte das pessoas que trabalharam ou contribuíram para Um Dia Normal eram jornalistas, mas houve pessoas com outras formações ou actividades (realizadores de cinema, documentaristas, webdesigners, infografistas, artistas...). Este facto fez com que as abordagens não fossem todas puramente jornalísticas ou mesmo, em alguns casos, puramente documentais. Temos, inclusive, imagens dos arquivos de alguns dos autores porque pensamos que essas imagens, o que guardamos, são parte importante da cultura visual em que estamos mergulhados.

Planos fixos de 1 minuto... a proposta entronca co documental-experimental contemporáneo, mesmo co cinema contemplativo. Houbo algún referente para a definición deses planos?
O jornalismo tem muito que aprender com a arte no campo da eficácia da mensagem ou mesmo na postura criativa. As regras com que se faz jornalismo são extraordinariamente dogmáticas e são raríssimos os exemplos de quem tenta abordagens alternativas para chegar à audiência. Como é evidente, os objectivos do jornalismo não passam exclusivamente por chegar a uma audiência (seja grande ou pequena), mas se os jornais não forem maleáveis e criativos, como poderão adaptar-se aos tempos revolucionários que vivemos com suportes, plataformas e formatos a mudarem todos os dias? No Público temos uma liberdade também cada vez mais rara que é a de pensar em voz alta. E uma vontade de experimentar (novos formatos, novas abordagens, novos suportes, novas maneiras de contar...). Um Dia Normal foi uma proposta radical e experimental (conceptual e editorialmente), que só avançou porque existe uma grande abertura de quem dirige o jornal em tentar abordagens diferentes da realidade ou da maneira de contar a realidade.
No campo do vídeo online há muito por fazer e parece-me que estamos muito presos à cultura visual e aos modos de produzir vídeo para televisão.
Os planos fixos pressupõem a ideia de um olhar atento, para dele retirar alguma coisa, uma nota de realidade, ou a evocação de uma ideia, de um traço. Um minuto é tempo suficiente (às vezes até demasiado) para, através da imagem vídeo em ambiente de ecrã online, olharmos atentamente. Esta estratégia formal pareceu-nos a mais próxima do que poderiam ser notas de reportagem num caderno (as comparações com a palavra e o papel estão sempre na nossa cabeça!), que lidam necessariamente com a observação da realidade e onde cabem a mais pura contemplação (da paisagem, do rosto, da geometria), a descrição (uma ferramenta essencial do jornalismo), a curiosidade e até um lado de memória e arquivo.
Conheço algum do trabalho de Sharon Lockhart (que aprecio muito), nomeadamente o projecto Pine Flat, que esteve no Museu do Chiado em Lisboa em 2007, e o vídeo Lunch Break (2008). Mas não houve nenhuma influência directa ao seu modo de conceptualizar a realidade.
Diria que a maior influência na definição de um rumo formal para Um Dia Normal terá sido o documentário vídeo na sua forma (e atitude) geralmente crua (despida de artifícios) de encarar a realidade.

Como foi a edición? Hai motivos, temas, lugares e personaxes que se repiten. Parece clara a intención de dotar o proxecto de certa narratividade.
Houve vários tipos de abordagens na edição. Em muitos casos, quem captava editava o seu próprio material. Este método resultava bem porque tornava mais rápida a escolha do “melhor minuto” em cada plano. Apenas uma pessoa impôs como regra gravar apenas um minuto por plano. Aqui, o único trabalho de edição era o da escolha do momento e o conteúdo do que gravar entre a realidade disponível, como se tratasse de uma edição anterior à captura de imagem e som.
Mas à medida que fomos avançando na junção das peças do puzzle, percebemos que havia vários planos da mesma cena que representavam um mínimo de estrutura narrativa e que podiam servir para pontuar todo o objecto com algo a que se pode chamar de avanço na história ou de visão de diferentes pontos de vista da mesma cena/ambiente. A inclusão destes momentos foi um dos aspectos mais discutidos entre a equipa. Havia quem estivesse contra por ser uma estratégia mais usada na ficção e havia quem estivesse a favor por ser uma forma de estimular a permanência no vídeo criando expectativa.

En todo documental hai trampas. Cales son as trampas confesábeis de Um Dia Normal?
Diria que as principais “armadilhas” são alguns vídeos autoreferenciais (do que estava à nossa volta - no trabalho, em casa), que o espectador dificilmente notará, e alguns vídeos onde existe um lado de encenação (os que foram feitos por um realizador de cinema). Há ainda planos onde a passagem do tempo é sublinhada (como se fosse hiper-realizada) através de planos de relógios, ampulhetas ou contagens decrescentes. Para além disso, não temos grandes armadilhas. Mas posso confessar também uma piada, também autoreferencial, que é o vídeo das 05h59, um plano de uma pesquisa no Google por “Empire Andy Warhol YouTube” que depois mostra parte do longuíssimo plano-sequência em câmara-lenta (8 horas e 5 minutos) que Warhol fez da torre do Empire State Building. Rimo-nos muito depois de termos filmado esse plano. Aconteceu numa altura em que havia na equipa um misto de desespero e profundo cansaço. Serviu para aliviar alguma tensão.

Um Dia Normal é un mosaico de microhistorias que compoñen un relato de Portugal a escala “macro”. A suma de feitos mínimos, anónimos, aparentemente banais, define o presente dun país. O filme non fala só de Portugal, senón de como se constrúe a historia (ou “unha historia”), minuto a minuto.
Tenho dúvidas de que algum dia um objecto vídeográfico e jornalístico-experimental como este sirva de referente para alguma coisa que esteja relacionada com história, no sentido mais académico da palavra. A partir de factos (depoimentos/testemunhos) o jornalismo tende a organizar as ideias ou as notas de uma reportagem numa linguagem facilmente compreensível e reconhecível. Um Dia Normal comete o “pecado” de olhar para o todo de uma maneira desorganizada e mais ou menos caótica e de o apresentar dessa forma, sem qualquer hierarquia e ao sabor dos gostos e dos interesses dos seus autores. É uma estratégia que parece contrariar as regras. E desta maneira a sua mais-valia fica talvez apenas ligada ao seu valor enquanto documento visual de um tempo, de 1440 pequenos tempos, que juntos representarão pouco mais do que “um grão de areia que desliza na história”. É uma estética da imagem baseada no documentarismo que procura o quotidiano, os “pequenos-nadas”. Esta abordagem não exclui a plasticidade, não para revelar ou procurar o belo mas para ajudar descrever o real, ou aquilo a que Jacques Prévert chamou “a beleza do sinistro”.

Parte da espectacularidade de Um Dia Normal radica en ser unha obra imposíbel de atinxir. Mesmo para o espectador que sexa capaz de ver, pouco a pouco, as 24 horas do filme, a sensación que prevalece é a de “mosaico mutante”, a cada minuto séguelle outro diferente. Ás veces desexaríamos ficar máis tempo contemplando unha imaxe, mais é substituída por outra, a seguinte. É unha maneira de facer explícito que “non podemos estar en todas partes ao mesmo tempo”. As imaxes “escápannos” e con elas lugares e xentes: por cada imaxe nova que vemos hai unha imaxe anterior que deixamos de ver. Fai pensar nos noticiarios dos Lumiere, as imaxes que descubrían o mundo ante os ollos dos primeiros espectadores de cinema.
A imagem tornou-se num dos grandes vícios das sociedades contemporâneas. A sua presença é endémica e vivemos num tempo em que a sua falta provoca ansiedade, stress, má-disposição e arrepios na espinha (queremos ver tudo, a todo o momento). Boa parte dos grandes negócios da internet, para falar apenas dos últimos dez anos, residem na partilha de imagens e no seu usufruto omnipresente e instantâneo (Facebook, YouTube, Instagram, Pinterest, Vine, Snapchat...). Quando decidimos partir para esta aventura, sabíamos que não podíamos abraçar o mundo. Sabíamos que não podíamos representar a totalidade do que quer que fosse. A limitação (no seu sentido mais lato) acabou por tornar-se um dos motores do trabalho. E a limitação do tempo de cada plano acabou por ser um dos exercícios mais estimulantes no momento do corte de planos e da montagem das 24 horas. Às vezes, o exercício era cortar o plano no seu momento mais alto, no seu mais estimulante ponto de vista (visual ou de conteúdo). Também tivemos sempre presente essa ideia de que o trabalho só iria ser absorvido parcialmente, aos bocados, de uma maneira errática ou “batoteira” (navegando através das setas de avançar ou recuar).
Mas até esse lado é interessante porque o trabalho se revelou linear, não assentando numa pirâmide (invertida ou não) de hierarquias definidas por leads, punchlines ou outra qualquer estratégia de construção narrativa – e quem acabou por determinar mais o que mostrar foi o momento do dia a que cada plano se refere: amanhecer, manhã, meio-dia, tarde, anoitecer, noite. Isto quer dizer, que qualquer momento pode ser um bom momento para entrar.
Por outro lado, a enorme quantidade de imagens de Um Dia Normal pressuporia sempre um lado descartável e rápido no momento do seu consumo. A pena pelo que acabou e a expectativa pelo que se segue é uma das forças deste objecto videográfico que, à sua maneira, acaba por ser viciante.

Um Dia Normal dá protagonismo ao individuo, a comunidade, os espazos e persoas que non soen aparecer nos medios. É unha proposta coral de xeografía humana que choca cun contexto actual onde todo fica sepultado aos grandes intereses (económicos, políticos). Cal é a lectura socio-política do filme?
Quisemos fugir a qualquer panfleto reivindicativo de identidade (nacional ou outra). Partimos de perguntas (infantis?) como: Se olharmos à nossa volta o que vemos? Entre o que vemos, o que pode representar o quotidiano, a passagem do tempo? O que pode representar um dia normal? Que pessoas e paisagens são representativas desse movimento dos dias?
Quisemos fugir também aquilo a que se convencionou chamar de “o país real” (muitas vezes retratado com clichés de país pobre, iletrado, tacanho...).
Quisemos fugir de uma manifestação marcadamente política  (aceitando, naturalmente, que tudo o que fazemos pode ter leituras políticas).
Mas, sim, procurámos o indivíduo e o individual, sem a preocupação de lhes dar aura ou espectacularidade .
Mais uma vez, tenho dúvidas de que se possa retirar deste Dia Normal algo de académico ou de historicamente muito relevante. Mas ao olhar agora para o resultado final, consigo encontrar traços que nos revelam e que nos projectam enquanto país e enquanto sociedade. São traços singelos, mas suficientemente perceptíveis para quem ficar atento.

O proxecto defende e explora a diversidade e a pluralidade de miradas que se opón á crecente parcialidade, dependencia e instrumentalización política que padecen os medios de comunicación. É Un Dia Normal, tamén, unha defensa/reivindicación do bo xornalismo?
Absolutamente!

Entrevista realizada por Xurxo González e Martin Pawley. Obrigadíssimo, Sérgio!

luns, 15 de xuño de 2015

Um dia normal

Probablemente non ocupará páxinas na historia do cinema. Ninguén se lembrará de que algunha vez houbo a ambición suficiente para facer un monumento cinematográfico de semellante magnitude. Titúlase Um día normal e celebra o 25º aniversario do xornal portugués Público. Malia ser promovido por un medio de comunicación este apenas fomentou a divulgación da súa existencia; dun xeito errado pensaron que unicamente sería consumido nun ámbito acoutado. Porén, quen caeu nas súas redes non poderá esquecer nunca a existencia deste espectacular fresco cunha superficie densa e inabarcable froito da imaxinación dun país que reborda creatividade.


As intencións son claras: “Os media dão, por regra, destaque a temas extraordinários. Mais vezes pelo lado negativo, menos vezes pelo lado positivo. Mas quase sempre porque são extraordinários. Porque o Tempo é o tema do 25.º aniversário PÚBLICO, quisemos olhar para a realidade de maneira diferente e registar em vídeo algo que se aproxime de um dia normal em Portugal”. Este proxecto pódese enmarcar na tradición portuguesa da auto-reflexión sobre a súa condición e identidade como país, a de facer crónicas da súa historia ao mesmo tempo épicas e líricas, totais e fraccionadas. Um día normal é un proxecto que recolle e actualiza a herdanza que inseminou Camões cos Lusíadas e que no cinema interpretou Manoel de Oliveira en Non ou A vã glória de mandar ou recentemente intentou edificar Miguel Gomes nas súas 1001 noites.

A directora do proxecto Um día normal é Bárbara Reis mais realmente se trata dunha creación plural cun equipo de coordinadores e colaboradores espallados polo país. Teceron un mosaico de 1440 vídeos cuxa duración é un minuto, un filme-experiencia de 24 horas que recolle un día da vida dun país. Case todos os vídeos foron feitos coa cámara fixa, cun único plano, sen cortes, que intenta reflectir o tempo real. Estes parámetros teñen moito de regreso ás orixes, de ver o mundo con novos ollos, de sorprenderse co cotián, o persistente, o anónimo, o que teoricamente non alcanza o status de noticia. A estes “minutos Lumière” accedemos a través dunha plataforma multimedia de acceso cunha liña temporal que nos axuda a orientarnos polos diferentes momentos da xornada. Uns mandos intuitivos axúdannos a desprazarnos polo día, saltar no tempo, ir ao futuro ou regresar ao pasado.

Um día normal explota os recursos técnicos do seu contexto de produción. As cámaras dixitais permiten mobilidade e fixarse en elementos da vida con inusitada sensibilidade, afastándose da xeralidade practicada polos mass media. Fragmentos que a xente sobe a Youtube, o gran almacén de imaxes da contemporaneidade que posibilitou proxectos coma Life in a day (2011), dirixido por Kevin McDonald e producido por Ridley Scott. Naquel filme de pouco máis de hora e media de duración facíase un retrato dun día a nivel mundial a través dunha montaxe que debullaba o material de partida, 4.500 horas procedentes de 192 países. Um día normal é a antítese. Apoiase máis no "contemplativo do plural", no fluír dos feitos pequenos. Todas estas pequenas accións son as que moven a vida dun país, as que constrúen a Historia.  

Ademais, Um día normal pasa a ser un magnífico referente á hora de relacionar a produción dun filme cos obxectivos que se pretenden. Un proxecto a ter en conta coma modelo cando os gobernos e institucións intentan empregar o audiovisual como ferramenta de promoción ou de cohesión social. As ferramentas audiovisuais permiten ser arriscados e audaces, tan só é preciso buscar un equilibro entre os recursos dispoñibles e as metas a atinxir.

Xurxo González

sábado, 13 de agosto de 2011

Un cineasta na capa do Público

O xornal portugués Público dedica hoxe boa parte da súa capa a destacar a presenza de directores portugueses en diferentes festivais internacionais [1]. Para ilustrar a información de apertura do suplemento Ípsilon emprega unha foto do amigo Gonçalo Tocha, de quen levo falando ben dende que o descubrín no Indielisboa 2007 co magnífico Balaou. Hoxe o bo do Gonçalo presenta en Locarno unha longametraxe de intencións monumentais da que puiden ver hai uns meses un moi estimulante adianto: É na Terra Não É Na Lua, un achegamento "total" á máis pequena das illas do arquipiélago dos Açores, a do Corvo. Outro amigo, o gran Francisco Ferreira, escribiu sobre o filme na revista Expresso; déixolles a seguir as dúas páxinas do artigo: 1 e 2

Alégrome ben do éxito dos cineastas que admiro, e máis aínda de que haxa xornais que saben darlle á creación cultural, e en particular a cinematográfica, o espazo que merece. Unha portada coma esta do Público en Galicia é absolutamente impensábel.

[1] Gonçalo Tocha en Locarno con É na Terra..., Teresa Villaverde en Venecia-Orizzonti con Cisne, João Canijo en Donostia con Sangue do meu sangue, Gabriel Abrantes en Locarno con Liberdade (co-dirixida por Benjamim Crotty) e en Venecia con Palácios de pena (co-dirixida por Daniel Schmidt), João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata con Alvorada vermelha en Locarno, e Joaquim Sapinho en Toronto con Deste Lado da Ressurreição.