luns, 20 de abril de 2026

Entrevista a Sérgio Coragem (e II): “O trabalho do ator muitas vezes é associado ao discurso e às palavras, mas também há muito discurso sem as palavras”

Na segunda parte da conversa co actor Sérgio Coragem poñemos o foco na longametraxe O riso e a faca do Pedro Pinho, estreada na sección Un Certain Regard do Festival de Cannes de 2025 con inmenso aplauso da crítica. Un filme en todos os sentidos monumental que lida con moitas cuestións fundamentais do noso tempo.

Sérgio Coragem no filme O Riso e a Faca (Pedro Pinho, 2025)

O filme tivo un proceso de produción moi extenso. En que momento Pedro Pinho che dixo “vou facer um filme e quero que ti esteas dentro do filme”?
Nós conhecemos, por ocasião dessas conversas, o Pedro Pinho em 2017 e, pronto, demos bem, o Pedro é uma pessoa espetacular, nós também somos fixe, e foi bom. E depois, passado um ano e tal, muito perto de 2019, ou já em 2019, a Joana Bravo, que na altura estava a trabalhar na produção do filme, na pré-produção, pré-pré, pediu-me a amizade no Facebook e mandou-me uma mensagem a dizer que o Pedro Pinho gostava muito de falar comigo, se eu tinha vontade de ter esse encontro. E eu disse obviamente que sim. Não pensei que fosse para uma audição do filme, pensei que fosse, sei lá, uma conversa sobre um assunto qualquer porque, como eu estou no teatro, se calhar ele queria saber alguma coisa ou se eu conhecia alguém; bem, não sei. O Pedro perguntou-me se eu podia encontrar com ele na Casa do Comum, quando estava ainda o edifício com a organização antiga, mas prestes a começar as obras. Eu fui lá, encontrei-me com ele e com o Tiago Espanha numa conversa filmada, filmaram-me a mim, a ter uma conversa sobre muitos assuntos. Lembro-me que a primeira coisa que ele me disse foi que ia ser uma conversa como se fosse uma audição. Depois pediu-me para eu descrever a minha vida em sete minutos (se calhar estou aqui a contar segredos que não devia, mas não faz mal, tenho todo o gosto em partilhar contigo e com o mundo inteiro). E depois de eu ter descrito a minha vida em sete minutos, começou-se a fazer uma conversa mais de pergunta e resposta. Lembro-me de termos falado sobre racismo, por exemplo, lembro-me de termos falado sobre família. No final dessa conversa, ele perguntou-me se eu tinha alguma coisa que me prendia a Portugal. E eu disse, depende, acho que não. Tem família, tem amigos, tem amores, tem uma vida, não é? Claro que há sempre coisas que nos prendem a Portugal, mas à partida, não, depende. Porquê? E ele disse-me, “é que o filme vai ter uma rodagem muito longa na Mauritânia e na Guiné-Bissau”. E eu disse-lhe, ah, OK, então esquece, porque eu tenho medo de andar de avião. Pronto, com muita pena minha, espero que o filme corra muito bem, que encontres a pessoa escolhida. Mas eu aviso-te já que eu não vou, porque eu tenho medo de andar de avião. Viajei muito pouco na minha vida até esse dia. Tinha ido uma vez para Londres em 2006, 2007, foi a passagem do ano. E tinha sido convidado ao Conservatório de Atores de Lyon e custou-me imenso, e portanto não tinha intenção nenhuma de voltar a enfiar-me dentro de um avião. Para além de que também não gosto muito de fazer turismo, acho que é uma coisa que já não existe sequer e é uma perda de tempo e de muito esforço e muito stress. Então não sou muito fascinado por viagens. Isto estou a falar na altura, estou a falar antes de ter sido eu o escolhido.
Acho que eu ter dado esta resposta ao Pedro fez com que ele achasse que eu poderia mesmo ser esse personagem. Precisamente por causa dessa questão de “pouco mundo”. E isso era importante, acho eu, para o Pedro e para quem escreveu o filme e para quem estava a produzir o filme, porque a ideia era que o personagem fosse um pouco assoberbado por aquilo que via (...)

Martin Pawley. Podedes ler ou ouvir a entrevista completa no sitio web da revista Quiasmo. Artes, letras e ciência.

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